sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Man Behind The Sun (Hong Kong, China, 1988)

Filme: Man Behind The Sun / Campo 731 - Bactérias, A Maldade Humana / Hak taai yeung 731
Diretor: Tun Fei Mou
Ano: 1988
País: Hong Kong / China
Duração: 105 minutos
Elenco:  Jianxin Chen, Hsu Gou, Linjie Hao

Durante a 2ª guerra os militares japoneses invadiram a China e estabeleceram o estado fantoche de Manchukou, na Manchúria. Para expandir seu império faziam experiências com o intuito de produzir armas bacteriológicas e vírus pelo esquadrão Manchu 731. 

Diferente dos dizeres de um poster do filme, que diz "na tradição de faces da morte", Man Behind The Sun não é bem este tipo de filme de execuções. O filme tem um certo caráter documental, explicando a situação no local e mostrando como eram as práticas e as motivações dos militares. Mas, na verdade, a maior parte do filme são cenas mais burocráticas, retratando a chegada do Dr. Shiro Ishii para comandar os experimentos e suas relações com os militares e acompanhamos as peripécias dos soldados mirins e o velho que trabalha no crematório picando e cantando enquanto coloca os pedaços de corpos no incinerador.

Os jovens soldados já aprendem desde cedo à desumanizar os prisioneiros, o que facilita sua execução. Em uma cena sem grande importância, vemos os meninos se arriscando para buscar uma bola, mas eles são descobertos e um deles é morto ao tentar fugir pela cerca elétrica - no único momento que ela parece estar ligada. No dia seguinte são castigados tendo que se arrastar na neve.

Uma mãe é descoberta pelos militares com um bebê e é mandada ao campo 731, enquanto seu filho é enterrado vivo na neve. No campo 731, derramam água gelada em suas mãos para que congelem ao ar livre. Com as mãos congeladas ela tem que colocá-las em um tanque, atrofiando os braços, que em seguida tem a pele facilmente retirada deixando os ossos expostos.



Em outro experimento, que parece uma evolução do anterior, um homem coloca as mãos em uma câmara e as retira congeladas. O médico/cientista bate nelas e as quebra em pedaços. Outros prisioneiros são crucificados próximos à explosivos, não o suficiente para matá-los, mas para desmembrá-los e mutilá-los.

Outro experimento dos mais marcantes é quando um chinês é colocado em uma câmara com um ruído alto, o que o faz inchar e seu intestino explode e salta para fora pelo seu ânus se contorcendo pelo chão como uma cobra. Em outra cena, uma mãe russa é colocada junto com sua filha em uma câmara de gás, para que sejam medidos os tempos das mortes, enquanto as crianças soldado, como em outros experimentos, são obrigadas a assistir o sofrimento das vítimas.




Mas a cena mais forte certamente é quando capturam um menino e abrem seu corpo, removendo seus órgãos, retirando seu coração ainda batendo. Com esta morte, os jovens resolvem se rebelar e espancam seu superior, mas isso parece não causar nenhuma consequência.
Os experimentos não se reduzem apenas à humanos. Um gato é solto em uma sala cheia de ratos que devoram o bichano. 



Alguns dos prisioneiros tentam fugas, mas são metralhados. Outros conseguem escapar durante o experimento das explosões, mas são capturados, ou mortos durante a fuga e vão se empilhando no crematório, um deles, inclusive, ainda vivo, tentando fugir com provas do que ocorria naquele local. Por fim, com a derrota certa do Japão na guerra e da aproximação dos russos, decidem matar os prisioneiros em câmaras de gás e queimá-los em uma grande vala e  destruir o local para não deixar provas. Neste ponto sobra até para os ratos, que aparecem correndo em chamas.

O prisioneiro sobrevivente consegue se disfarçar e está prestes a escapar com os militares e suas famílias, mas é descoberto e morto, terminando de pintar a bandeira japonesa de sangue chinês.



O filme, muitas vezes presente e listas de filmes mais polêmicos ou chocantes, pode não ser visto como tão extremo atualmente, principalmente para quem já tem alguma experiência em filmes violentos, já que são poucas as cenas de mortes. Mas é inegável que o filme provoca desconforto por alguns efeitos bem realistas, principalmente a autópsia do menino e sobretudo por ter sido baseado em uma história real, o que choca pelo quão abominável pode ser o ser humano, e não é de se admirar se o que de fato ocorreu foi algo como representado na tela ou mesmo até pior. Para dar a sensação de realismo nas partes de gore mesmo com um pequeno orçamento, foram usados corpos reais de humanos e animais, inclusive o menino que tem seu corpo aberto.
Sobre o gato que supostamente é devorado pelos ratos, o diretor afirmou que ele foi coberto de mel, e que apenas foi lambido pelos ratos esfomeados e devolvido são e salvo ao seu dono. Já os ratos não tiveram a mesma sorte e foram realmente queimados no final do filme, para a alegria dos fazendeiros locais.
O filme teve mais, até onde eu sei, quatro continuações, o primeiro e o quarto dirigido por Tun Fei Mou e o segundo e terceiro por Godfrey Ho. Também teve o filme Philosophy of a Knife, que trata sobre a unidade 731 e tem mais de quatro horas de duração. Se alguém recomenda ou não estes filmes, deixe sua opinião nos comentários.

Segundo alguns historiadores, estima-se que 250 mil homens, mulheres e crianças foram submetidos aos experimentos realizados no Campo 731, também conhecido como Unidade 731. A grande maioria das vítimas eram chineses, embora também houveram prisioneiros soviéticos, mongóis, coreanos e aliados. 
Os pesquisadores envolvidos na Unidade 731 ao invés de serem devidamente julgados por seus crimes, receberam imunidade dos Estados Unidos em troca dos dados de suas pesquisas, assim como o que aconteceu com os pesquisadores nazistas. Acredita-se que os Estados Unidos utilizaram os resultados destas desumanas pesquisas para seu próprio programa militar.



Um pouco sobre o Cat. III:
Man Behind The Sun, ou "Campo 731 - Bactérias, A maldade humana", no Brasil, fez sucesso na época de lançamento e estreou, em 1988, a Cat. III, classificação de Hong Kong permitida apenas para maiores de 18 anos, em razão de seu nível de violência gráfica. A indústria percebeu que existia uma grande demanda por filmes com conteúdo extremo, resultando em um grande estouro de filmes repletos de sexo e violência.
A classificação de categorias era separada da seguinte forma:
I: Para todas as idades;
IIa: Não adequado para crianças;
IIb: Não adequado para jovens;
III: Não aprovado para exibição para menores de 18 anos.
As categorias I, IIa e IIb eram advertências apenas e não tecnicamente ilegais para crianças assistirem no cinema, diferente da categoria III. Geralmente os filmes Cat. III não eram censurados, com algumas exceções como Dr. Lamb e The Untold Story. Alguns filmes também foram banidos. 

Os filmes Cat. III fizeram muito sucesso nos anos 90, sendo que quase 50% dos filmes exibidos nos cinemas de Hong Kong, alguns tendo sucesso de filmes mainstream, como Chinese Torture Chamber Story. Isto é uma coisa não tão comum no ocidente, onde filmes extremos costumavam sair diretamente para vídeo. Atores de filmes Cat. III também tinham um grande reconhecimento, como o caso de Anthony Wong, que ganhou o prêmio de melhor ator no Hong Kong Film Awards de 1994 por The Untold Story.

Os filme Cat. III não se limitavam à apenas um gênero, podendo ser de ação, horror, suspense e até mesmo comédia, desde que possuíssem conteúdo com violência, ou sexo, ou abordassem temas tabu. Alguns até envolvem elementos de gêneros diferentes, como Riki-Oh e Eternal Evil of Asia. Novamente citando The Untold Story, que contrasta cenas das atrocidades de um cruel assassino com cenas de comédia. Ainda sobre este filme, diversos filmes utilizam histórias similares de assassinos em série, muitas vezes envolvendo violência sexual com cenas pesadas, como nos filmes Ebola Syndrome, Red To Kill, Daughter of Darkness, Dr. Lamb e Taxi Hunter.

Comparando os filmes Cat. III com a lista britânica dos video nasties, por exemplo, percebemos que os Cat. III tinham mais liberdade, sendo exibidos em grandes cinemas para muitos expectadores, enquanto os video nasties, que muitas vezes eram feitos diretamente para vídeo, geraram toda uma manifestação por parte de entidades conservadoras, com o auxílio da mídia, tentando censurar e proibir estes filmes - tanto que muitas fitas foram apreendidas e até queimadas - usando de reportagens mentirosas e sensacionalistas relacionando qualquer crime à influência dos filmes e com a desculpa de sempre de "corromper as nossas crianças". Bom, mas isso é assunto para uma outra oportunidade.

Alguns filmes anteriores à 1988 foram reclassificados e passaram a integrar a lista de Cat. III, como Centipede Horror, Devil Fetus, Seeding of a Ghost, The Rape After e The Seventh Curse. 
O período de maior produção destes filmes foi entre 1988 e 1999, como: A Chinese Torture Chamber Story, Brother Of Darkness, Daughter of Darkness, Diary of a Serial Killer, Dr. Lamb, Ebola Syndrome, Erotic Ghost Story, Eternal Evil of Asia, Her Vengeange, Naked Killer, Peeping Tom, Raped by an Angel, Red To Kill, Riki-Oh, Robotrix, Run and Kill, Sex And Zen, Taxi Hunter, The Untold Story, entre muitos outros.
Filmes mais recentes também ganharam esta classificação, como: 3 Extremes II, Three... Extremes, Dumplings, Gong Tau, Human Pork Chop.

domingo, 1 de outubro de 2017

The Boxer's Omen (Hong Kong, 1983)

Filme: The Boxers Omen / Mo / Black Magic 4 / Zombi 10
Diretor: Chih-Hung Kuei
Ano: 1983
País: Hong Kong
Duração: 105 minutos
Elenco: Phillip Ko, Shao-Yen Lin, Kar-Man Wai, Bolo Yeung

O filme inicia com uma luta de boxe entre um atleta da Tailândia, Ba Bo (Bolo Yeung) e um de Hong Kong. O de Hong Kong está sendo massacrado, mas consegue acertar um chute no oponente que lhe rasga a cara - provavelmente por lutar com unhas compridas - o que lhe dá a vitória. Ba Bo, que não gosta de jogar limpo, não aceita e vai para cima do oponente e quebra seu pescoço, causando um tumulto generalizado no ringue.
Chan Hung, o irmão do lutador que se encontra hospitalizado, tem que se encontrar com uma gangue, que na verdade era uma emboscada. Eles haviam matado seu tio e tentam o mesmo com ele. Até que aparece uma figura misteriosa e com poderes de um buda misturado com um chafariz que o salva e pede que ele o siga, coisa que não faz. Esta cena parece apenas servir para apresentar o poderoso sacerdote budista, já que não se fala mais nos agressores ou no tio morto.
O estranho sujeito retorna à casa de Chan Hung na forma da silhueta de um templo luminoso, depois tomando sua forma humana e logo desaparece. Chan visita seu irmão no hospital, que está bem ferido e pede vingança. O irmão logo vai a um evento na Tailândia onde Ba Bo está recebendo um cinto de campeão e intervém, dizendo que ele não merece, tirando dele e querendo briga.


Na volta, ele vê novamente a forma luminosa no topo de um templo budista e lá é recebido. Explicam-lhe sobre seu sacerdote, que salvou um mestre de magia negra. Para isto ele lhe grudou uma espécie de espelhinho na sua testa que emitia círculos de luz multicoloridos. Isto fez sua pele parecer tomada por massa de pão e em seguida cresceram bolhas em sua pele até se transformar em uma velha desdentada - e aparentemente morta - de onde sai um morcego de sua boca. Não é algo que eu chamaria de salvação...



O morcego é morto apunhalado pelo sacerdote, o que desperta um sujeito com máscara de morcego que come um rato vivo e cospe seu sangue nos ossos do morcego, fazendo-o reviver.
O esqueleto do morcego sai andando serelepe em direção à saída do templo até ser esmigalhado pelo sacerdote budista. O homem-morcego agora toca sua flauta e encanta cobras para retirar seu veneno, que o introduz no cérebro de um crânio semidecomposto. Dá uma misturadinha na receita e alimenta aranhas, que parecem chupar o líquido de canudinho. Vale destacar que as aranhas estão mais para fofinhas do que para assustadoras. Elas têm o corpo gordo e patas curtinhas e não convencem nem um pouco, mas vamos acreditar que são aranhas perigosas.


Nada parece fazer muito sentido para nossas mentes ocidentais e as sequencias bizarras continuam. O homem-morcego, munido de suas aranhas contaminadas, vai ao templo envenenar o sacerdote com elas. Coisa que ele faz da forma mais prática possível: sobe pelas pareces e no teto e solta as aranhas em cima do sacerdote que é picado nos olhos.
Antes de morrer, o sacerdote que estava prestes a se tornar imortal, diz que alguém chamado Chan Hung - bem específico ele - apareceria em três meses ao templo, e lá estava ele, ouvindo toda esta história. 
Eles o mostram o corpo do sacerdote, que estava dentro de um vaso de cerâmica e ainda estava em bom estado. O corpo começa a falar e explica que eles foram gêmeos em vidas passadas. Quando seu corpo se decompor, será também a hora de sua morte. Chan Hung não dá muita atenção ao morto falante e vai para casa.
À noite ele começa a passar mal - bem mal, por sinal - quando vomita uma enguia, ainda viva. Convencido de sua missão, ele volta ao tempo e descobre que precisa se tornar um monge para combater o mal, mas sua maior preocupação é em raspar o cabelo.
O treinamento vai desde meditar em um rio cheio de sanguessugas, à receber as palavras de um vaso para o seu corpo - esta cena é difícil de ser explicada, precisa ser vista, mas seu corpo parece uma tela onde são projetadas algumas palavras que estavam inscritas no grande vaso onde ele estava.


Após o treinamento ele enfrenta o homem-morcego, que invoca morcegos de dentro de crânios de jacarés com o sacrifício de galinhas. Os morcegos atacam o agora monge, mas com seu novo poder ele cerca-se por um vaso que queima os morcegos e novamente vemos as palavras sendo projetadas em seu corpo.
Os crânios de jacarés ganham vida e vão rastejando e atacam o monge que detém suas mordidas. O satânico lhe responde com o dedo médio e arremessa um vaso que faz o monge dar voltas para trás quando atingido, sentindo agora este golpe. Para se tornar poderoso, o satânico homem-morcego come os restos de um animal e vomita-os, e come o vômito, e o vomita novamente, e o come novamente... Em seguida ele dá vida a uma cabeça verde que parece alienígena com uma tripa pendurada que fica balançando-se no ar. Mas isso ainda é pouco para o nosso poderoso monge, que facilmente explode a cabeça com seu poder.



O malvado não desiste e tem mais truques: ele enfia-se pontas afiadas em seu pescoço, que faz sua cabeça desgrudar do corpo com inúmeras e pequenas tripas abaixo dela. A cabeça levita e agarra o rosto do monge, que ainda consegue se livrar e com a chegada do sol - ou da lua - a cabeça se decompõe rapidamente.
Assim, ele quebrou o encanto e salva a si mesmo e a imortalidade do sacerdote. Com isso ele já pode voltar para casa e colocar um fim à sua abstinência sexual depois de tantos treinamentos e batalhas exaustivas, afinal ninguém é de ferro... Mas mal sabia ele que este ato iria lhe colocar novamente em problemas.
Três sujeitos, em um local decorado com cabeças decepadas e uma estátua assustadora com luz esverdeada, abrem um grande jacaré e dentro dele colocam um corpo. Não se preocupem com os animais, todos parecem bem falsos.


Enquanto este pessoal da magia negra faz suas artimanhas, Chan Hung vai para o ringue para lutar com Ba Bo. Ele não parece ter aprendido a lutar com os budistas e, assim como o irmão, vai apanhando. Depois de um tempo, o trio remove o corpo do jacaré e fazem um ritual comendo nojeiras e vomitando e assim sucessivamente. A massaroca resultante serve para alimentar o corpo de uma mulher, que ganha vida e faz uma espécie de vodu com a imagem do sacerdote, o que parece também atingir Chan Hung, que perde a visão durante a luta e apanha feio. Mas ele recusa-se a desistir e em uma reação de sorte, consegue uma vitória, não muito convincente.
Chan Hung e seu mestre extraem um poderoso líquido de um ganoderma (um cogumelão). Os budistas descobrem que ele quebrou a regra da abstinência, o que tirou a imortalidade novamente do sacerdote - imortalidade esta que é bem sensível, pelo jeito - e logo o matará também. Só há apenas uma forma de viver. Para isto ele vai à Katmandu para pegar as cinzas de buda. Ele se faz um profundo corte e aplica o líquido do cogumelo e em seguida costura o corte, fazendo uma luz transitar pelo seu corpo. Será que não dava pra usar uma seringa?


Ele vai ao templo, mas o mesmo é protegido por forças sobrenaturais. Estatuas ganham vida e soltam raios. Não bastasse isto, aparece a mulher do jacaré e invoca este animal, que ataca  o nosso monge transante. Ela ainda o domina com mãozinhas esqueléticas e rugas que cobrem o seu corpo. Com os seus truques budistas, um sacerdote aparece e arranca toda pele da mulher, que caga um líquido azul e dá a luz aos três sujeitos que a invocaram, em seguida ela é tragada por vermes.
Um deles abre sua barriga e os outros amputam suas mãos e pingam seu sangue sobre o corte. Da união de seus poderes surgem criaturas que atiram raios. Nada disso é suficiente para vencer as forças budistas. Assim Chan Hung, de alguma forma atinge seu objetivo e em um final súbito, salva sua vida e a imortalidade do sacerdote. FIM!

Ufa, chegamos ao fim deste filme, digamos, um tanto quanto exótico, que só poderia ser concebido por uma mente insana asiática. Apesar de parecer não fazer muito sentido - e se você leu este texto sem ter visto o filme, fará ainda mesmo - o filme é bem interessante, mesmo com pouco gore, tem bastante nojeiras e bizarrices sem fim. Além de muitos efeitos coloridos, luminosos que dão uma aura oitentista e psicodélica à produção.
O filme foi produzido pela famosa Shaw Brothers, especialista em filmes de kung fu, mas que também produziu diversos filmes de horror, como Hex, Hex vs. Wichcraft, Ghost Eyes, The Killer Snakes, Bewitched, Corpse Mania, para citar apenas alguns, que também são do diretor de The Boxers Omen, Chih-Hung Kuei. Bewitched, de nome original Gu, é o filme cujo The Boxers Omen é sequência, e também parece bastante interessante. Ele também dirigiu o WIP Bamboo House of Dolls, a comédia erótica de kung fu, Virgins of The Seven Seas e o bruexploitation Iron Dragon Strikes Back. Infelizemente depois de 1984 ele mudou-se para os Estados Unidos e saiu da indústria do cinema para abrir uma pizzaria. Ele faleceu em 1999, vítima de câncer de fígado. 
A própria Shaw Brothers também teve outras produções relacionadas à magia negra, como Black Magic e Black Magic 2. O próprio The Boxer's Omen, cujo título original é Mo, saiu com o título na Indonésia e nos Estados Unidos de Black Magic 4, já em Moçambique, aproveitaram outra franquia não oficial e o chamaram de Zombi 10!
The Boxer's Omen também tem algumas características, como a magia negra, cabeças voadoras e duelo de magos que lembram o filme indonésio Mystics In Bali e Witch With The Flying Head, Seeding of a Ghost - este também com os atores Kar-Man Wai e Philip Ko - , The Eternal Evil of Asia, entre vários outros deste que foi praticamente um subgênero no cinema asiático envolvendo o rico e criativo folclore da China, Hong Kong e parte do sudeste asiático.
Pelo que pesquisei, The Boxers Omen não chega a ser considerado um filme Cat. III, uma classificação de filmes somente para adultos, devido ao seu conteúdo relacionado ao sexo e violência, embora deva se aproximar. Mas, voltarei em mais detalhes ao assunto na postagem de um filme mais apropriado. Neste caso a insanidade e bizarrice são os pontos mais explorados, sem tanto espaço para violência gráfica ou nudez, mas que também estão presentes.


Se a cultura oriental já nos é estranha ao natural, imagine isto potencializado pelo poder do cinema trash, repleto de cores multicoloridas, de auto-mutilações, de rituais nojentos, de mortos que voltam à vida de formas mais bizarras e impensáveis, e de vários momentos grotescos e surreais. Cheguei a ver comentários comparando com filmes de Alejandro Jodorowski e José Mojica, e coisas como a parte mística e surreal e imagens do inferno psicodélico podem lembrar estes diretores, mas somente quanto à parte visual. Enfim, dito tudo isto, recomendo muito este filme.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

La Venganza de los Punks (México, 1987)

Filme: La Venganza de Los Punks
Diretor: Damián Acosta Esparza
Ano: 1987?
País: México
Duração: 90 minutos
Elenco: Fidel Abrego, Socorro Albarrán, Anaís de Melo, El Fantasma, Olga Rios

Alguns anos depois, os punks mexicanos voltam à atacar em La Venganza de Los Punks, filme que parece uma continuação direta de Intrepidos Punks e aparenta ter sido produzido na mesma época, inclusive pelas indumentárias dos personagens e qualidade de vídeo. O filme começa com os punks explodindo o presídio para libertar Tarzan. Logo eles estão de volta ao seu acampamento fazendo o que fazem de melhor: orgias e chapando-se. Vemos mulheres peladas, alguém tendo uma suástica pintada em sua bunda com canetinha. Um cara com cabelo espetado feito com papel alumínio.

Tarzan aparece com seus capangas Louco, Vinking, entre outros, em uma festinha de aniversário da filha de um dos policiais, Marco. Seguindo seu modus operandi, eles estupram as mulheres e matam todos, menos Marco, para fazê-lo sofrer - um erro terrível. E aqui termina a vingança dos punks, que dá nome ao filme. De agora em diante, tudo que vemos poderia ser chamado de La Venganza de Marco.


Marco quer que o caso fique com ele, mas seu superior o proíbe para que ele não trate o caso como vingança. Mas é justamente isto que Marco quer e pede demissão, para se vingar por conta própria. 
Na cena seguinte, uma gangue, que não é a dos punks, assalta uma vídeo locadora e mata todo pessoal por lá. Por sorte a polícia estava de passagem e entram em confronto e um dos policiais morre. Como esta cena não tem qualquer ligação com o restante do filme, seguimos adiante. 

Os punks agora, além de carnavalescos e nazistas, também são satanistas, com direito a uma estátua do diabo com sérias restrições orçamentárias e com os luzes piscando nos olhos. Vemos eles fazendo um ritual para agradecer pela vingança. Tarzan, com um cone na cabeça como da ku klux klan, porém multicolorido, sacrifica um carneiro e todos precisam dar uma roída na cabeça do animal, enquanto uma mulher quase nua pintada e com peruca dourada fica dançando. 



Marco localiza o esconderijo dos punks e inicia sua vingança por um vigia da gangue chamado de Mãozudo (!). Marco poderia simplesmente usar um revólver ou até uma faca em sua vingança, mas seria fácil e pouco criativo, além de não obter a tortura que irá saciá-lo. Marco surra Mãozudo e enfia uma estaca você sabe onde. O próximo é colocado em um um poço com cobras.

Pantera, a mulher de Tarzan é sequestrada por Marco e a chicoteia, mas não a mata, deixando-a presa em casa. Durante a vingança de Marco, Ojal, um dos punks quer se rebelar contra Tarzan e tomar o controle da gangue. Ojal tenta matar Tarzan atirando nele, mas parece só fazer um cortezinho. Tarzan nem tem tempo de pegá-lo, pois Marco logo faz isto e o mata atravessando sua cabeça com uma lança. 


Em seguida é a vez do punk com cabelo espetado de papel alumínio e calça de lycra, que é decapitado. O Charles Bronson mexicano se mostra um assassino cruel e sádico e sempre disposto a utilizar uma nova arma. Inspirado pelo Zé do Caixão, ele solta aranhas sobre o corpo de outra punk, enquanto mais uma é morta sendo derretida com ácido.


Para não ficar tão fácil para Marco, Pantera consegue escapar - duas vezes - e numa delas acerta-lhe uns tiros, coisa que o fará mancar por um tempo, mas até o fim do filme ele já parece perfeitamente recuperado. Seguindo sua missão, Marco queima outro punk vivo com um lança-chamas, até que, vendo que são muitos inimigos, perde a paciência e mata mais vários metralhando-os até, finalmente, chegar ao duelo contra Tarzan. Marco já totalmente insano e muito mais cruel que os próprios inimigos. Seu pesadelo só tem fim quando ele prende Tarzan de cabeça para baixo e começa a arrancar seus olhos - mas sem perder sua máscara, pois isso seria humilhação demais. Não vou revelar aqui, mas no final ainda temos um plot-twist daqueles mais manjados e desnecessários do cinema.


Não que seja muita coisa, mas achei La Venganza de Los Punks melhor que o antecessor Intrepidos Punks. Este até parece ter um enredo, que até é meio repetitivo e não é lá muito coerente com o título do filme, além de ser um clichê gigante de filmes de vingadores solitários. O filme repete vários dos punks do primeiro filme, mas agora com a direção de Damián Acosta Esparza, que fez também El Violador Infernal, este com a atuação da Princesa Lea, que não está presente no La Venganza de Los Punks até por ter sido morta no filme anterior. Mesmo com outro diretor, o filme parece uma sequência direta, mantendo a ignorância sobre a cultura punk. Além dos punks carnavalescos, agora também podemos rir de sua seita satânica e da criatividade assassina de Marco.


Acho que o orçamento aqui foi não deu para pagar uma música tema e só usaram músicas genéricas instrumentais. O filme até tenta desenvolver mais alguns personagens, como o punk Ojal, mas não vai muito à fundo e ele é logo morto quando tenta sua rebelião. Continuamos com os nomes bem punks como Pantera, Medusa, Louco, Viking, Mãozudo, além do chefe Tarzán.

O filme acaba sendo até mais violento, por conta da vingança sangrenta de Marco, que acaba sendo mais cruel que os punks, que desta vez ficam mais quietinhos no seu canto do que cometendo crimes por aí. O nível de exploitation também é elevado com mais nudez e vestimentas ainda mais absurdas dos punks.


Assim como Intrepidos Punks, La Venganza de los Punks parece sofrer com o mesmo problema que é a dúvida em seu ano de lançamento. No IMDb mostra como 1991, mas como ano de lançamento 1987, mesmo ano que o livro Destroy All Movies lista, que parece ser o mais correto, pela qualidade de imagem, que parece ter sido filmado pouco tempo após o filme anterior, que vou acreditar que é de 1983.

O ator Fidel Abrego, que faz Marco, também fez inúmeros outros filmes de crime, além de ter feito um papel pequeno em Chamas da Vingança, com Denzel Washington.

Uma boa pedida é fazer uma sessão dupla com Intrepidos Punks seguido por La Venganza de Los Punks. Diversão garantida.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Intrepidos Punks (México, 1983)

Filme: Intrepidos Punks
Diretor: Francisco Guerrero
Ano: 1983?
País: México
Duração: 90 minutos
Elenco: Juan Valentín, Juan Gallardo, Ana Luisa Peluffo, Princesa Lea, El Fantasma 

Um grupo de freiras armadas assaltam um banco e fogem com punks motoqueiros. Bem, "punk" era o que eles deveriam ser, segundo o título do filme, mas são uma gangue de motoqueiros maquiados, com roupas espalhafatosas e ridículas, cabelos armados, e cheios de quinquilharias penduradas nas roupas e nos rostos. Uma das líderes da gangue é Fiera (interpretada pela atriz que atende pelo nome de Princesa Lea!), que é a companheira de Tarzan (vivido pelo luchador El Fantasma) e quer tirá-lo da cadeia. Para isso, ela compra armas de um bandido com tapa-olho e após, junto com seus intrépidos punks, invadem a casa onde estão as esposas dos chefes do presídio - estes que, por sua vez, estão juntos em uma orgia em outro lugar. Os punks chegam tocando o terror e abusam das mulheres enquanto aparece uma banda - que supostamente seria punk - tocando no local - com todos instrumentos e amplificadores - fazendo a trilha sonora da violação. 


Fiera entra em contato com o diretor da prisão, pedindo que soltem os amigos punks ou as suas mulheres irão pagar por isto. Como não dão muita atenção, prontamente é recebido uma entrega mais rápida que SEDEX 10 contendo a mão da esposa do diretor. 




Assim, os presos são soltos e eles ficam desfilando em seus veículos alegóricos e roupas carnavalescas pelas ruas enquanto toca a música tema do filme "Intrepidos Punks". Tarzan, o líder da turma, usa trajes mais punks possíveis: roupa tigrada e com lantejoulas e uma máscara brilhante - já que, como luchador, não pode revelar o rosto. Eles voltam ao seu acampamento no deserto, lembrando os punk-pós-apocalípticos de Mad Max 2 e passam a noite na farra, onde eles ficam duelando entre si, se drogando e fazendo orgias, masoquistas ou não, sempre com as mulheres praticamente nuas. Agora que podia ter a banda tocando não tem nada. Vai ver deixaram os instrumentos na casa do diretor ou estavam ocupados demais nas orgias.

Enquanto dois policiais bigodudos, chamados Marco e Javier estão ocupados em prender o Um-Olho, os punks - e sua música tema - barbarizam um posto de gasolina, roubando, estuprando e ateando fogo em um sujeito. Depois eles chegam a uma pedreira e espancam todo mundo e roubam caminhão de gasolina e fazem outra festinha, com direito a roleta russa - que não dá certo - e as tradicionais orgias, consumo de drogas e um bando de gente gritando. 


O filma vai indo assim, os punks aparecem, - junto com a música tema que repete o tempo todo - cometem seus crimes e depois vão farrear no seu acampamento deserto. Eles aceitam um trabalho de um traficante para entregar mercadorias, mas, como bons fora-da-lei que são, fogem com ela. Aí então são perseguidos pelos traficantes que tentam atacá-los, mas são em número muito menor e se dão mal. Um deles é amarrado à moto e arrastado. Em seguida é amarrado ao caminhão de gasolina e explodido, desperdiçando um bom estoque de combustível.


Finalmente os dois policiais, que já haviam prendido os punks, irão atrás deles, depois de mais de uma hora de filme, mas não sem antes serem encurralados - junto com a música tema. Os dois são sequestrados pelos punks e, quando estão prestes a serem enterrados vivos, a polícia chega e os salva, entrando todos no embate, sobrando até para Fiera. Tarzan, após ser perseguido de carro é preso, mas o comandante não parece otimista: "Parece apenas a ponta do iceberg", deixando uma ponta para a continuação que, anos depois veio no filme La Venganza de Los Punks. Não deixa de ser triste ver os nossos queridos e intrépidos punks serem pegos por dois policiais com cara de dupla sertaneja.


Intrepidos Punks mostra que nem só de filmes de luchadores viveu o exploitation mexicano - apesar deste ainda ter algo do tipo. Este "punksploitation" ou "bikesploitation", pra ser até mais exato, é recheado de violência, nudez, sexo e consumo de drogas. Mas, se você procura um filme que retrate fielmente a cultura punk, veio ao lugar errado. Normalmente o cinema costuma retratar os punks de forma exagerada e preconceituosa, e aqui isso é ainda mais potencializado. Se vê mesmo que os produtores do filme não tinham muita ideia do que era o punk ou punk rock, ou preferiram retratá-los de forma mais pós-apocalíptica-carnavalesca possível, lembrando as gangues de "punks" de Mad Max 2. O que pode impressionar é que, segundo o IMDb, o filme é de 1980, um ano antes do filme de George Miller, porém, no mesmo IMDb, consta que o filme foi lançado apenas em 1988. Já, segundo os livros Destroy All Movies, e Fight Back: Punk, Politics and Resistance, Intrepidos Punks seria de 1983, o que pode fazer mais sentido. Portanto, não dá pra dizer com certeza se o filme foi influenciado ou influenciou Mad Max 2. Também daria para citar The Warriors e suas gangues, filme que realmente influenciou as gangues de punks no Brasil.


Nem mesmo a música tema, que repete todo o tempo e chama-se "Intrepidos Punks" pode ser chamada de punk rock, apenas com uma certa boa vontade. Mas é na tosquice dessa representação que está a diversão do filme. Basta ver os nomes ultra punks do pessoal: Calígula, Pirata, Peituda, Tarzan, Fiera. Sobre o Tarzan, que está sempre de máscara por ser o luchador El Fantasma, ele até arrisca uns golpes de lucha libre durante as lutas. Ele também participou da continuação La Venganza de Los Punks e outros dois filmes bem obscuros de 2007, El fantasma vs. la aldea de los zombies e El fantasma vs. la maldición de la piramide. 

Já as mulheres punks usam seus cabelões e roupas mínimas, quando as usam, e Fiera, interpretada pela Princela Lea, também fez outra obra classe Z como El Violador Infernal. 
Mas além da má representação dos punks, os atores também representam muito mal, os diálogos são risíveis, os punks passam o filme todo gritando, e a própria história é muito mal elaborada, sendo quase todo filme composto por cenas isoladas para, apenas no final, os policiais se derem ao trabalho de irem atrás deles. Pois é, os punks são tão maus que mesmo depois de estuprarem e matarem as esposas dos responsáveis pela cadeia, continuam boa parte do filme barbarizando por aí sem serem importunados pela polícia. Mas, você já sabe, esses pormenores como direção, enredo, atuação, diálogos, entre outros, não devem ser levados muito em consideração para a apreciação desta película.
Na próxima postagem teremos a sequência desta saga dos punks mexicanos, que já adianto que é melhor que este.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

The Void (Canadá, 2016)

Filme: The Void
Diretor: Jeremy Gillespie, Steven Kostanski
Ano: 2016
País: Canadá
Duração: 90 minutos
Elenco: Aaron Poole, Kenneth Welsh, Daniel Fathers 

Para quem acompanha o blog, o nome dos diretores Jeremy Gillespie e Steven Kostanski não devem soar estranhos, pois eles são integrantes do coletivo Astron-6 e participaram ativamente de filmes como Father's Day e Manborg e mais discretamente de The Editor. Além disso, participaram de grandes produções, como Esquadrão Suicida, A Colina Escarlate, a série Hannibal e estão na produção do remake de It: A Coisa.

The Void foi uma produção paralela à Astron-6, sendo financiada coletivamente - arrecadando cerca de $ 82 mil, cujo custo total foi de $ 160 mil - com uma ideia mais ambiciosa do que os trashs que fizeram anteriormente, referenciando Lovecraft e homenageando o body horror dos anos 80 em uma história de mistério tensa e sombria.

Tudo começa quando dois sujeitos, que parecem pai e filho, perseguem um casal de jovens. Enquanto o homem consegue fugir, a moça é atingida por um tiro e queimada viva. O fugitivo é encontrado rastejando pela estrada pelo policial Daniel e levado ao hospital, por estar coberto de sangue.

No hospital - que se encontra isolado e cercado pela floresta - que está parcialmente desativado e quase deserto,  Daniel encontra sua esposa (ou ex), a enfermeira Allison, a qual possuem um trauma antigo relacionado com a perda de seu bebê. Lá, coisas estranhas começam a ocorrer. Uma das enfermeiras mata um paciente uma tesoura e corta a própria pele do rosto negando sua real aparência. Ela tenta atacar Daniel, que se vê obrigado a atirar nela. 


As coisas ainda ficarão mais estranhas quando o corpo da enfermeira ganha vida e torna-se uma criatura disforme com tentáculos que começa a atacar os presentes. Não bastasse isso, o pai e o filho invadem o hospital atrás do seu foragido. Além da tensão crescente dentro do hospital, eles se vêem presos no local, pois o mesmo se encontra cercado por pessoas vestindo um manto branco com um triângulo estampado no rosto, parecendo ser integrantes de uma seita. 

Soma-se aos mortos o médico, que é atacado pelo fugitivo e um sargento que é levado pelo monstro. Enquanto as enfermeiras tentam salvar Maggie, que está grávida e prestes a ter o bebê, ainda precisam se entender com os dois estranhos armados e lidar com as criaturas. Mas Richard, o médico morto também está de volta à vida, e o fugitivo, após uma tortura, fala que ele está envolvido com o culto dos caras de triângulo, onde faziam assassinatos e sacrifícios, buscando uma forma de vencer a linha entre a vida e a morte, após o trauma de perder a própria filha. 

Os homens restantes partem para o necrotério do hospital e entram em uma espécie de dimensão paralela, indicada pelo símbolo do triângulo, onde encontram-se com os frutos dos experimentos macabros do médico: corpos mutilados e deformados que voltaram a viver, lembrando as criaturas dos jogos Silent Hill. Neste ambiente, Richard, que já se encontra sem a pele do corpo, ignorando a dor e vendo a forma humana como transitória, manipula as percepções de realidade dos presentes, confundindo-os entre a realidade, loucura e pesadelos, baseados em seus traumas pessoais, medos e culpas, tanto que dá a impressão que Daniel é levado à matar Allison, após vê-la como um monstruoso emaranhado de tentáculos. 


Ao fim, Maggie, que estava grávida do médico, dá a luz à uma grotesca e enorme criatura e abre-se um portal para uma outra dimensão, onde aparecem Daniel e Allison em um ambiente deserto e desolado indo de encontro com o nome do filme e em uma clara referência ao final de The Beyond, de Lucio Fulci.



Quem gosta do citado The Beyond deve ter se empolgado com este final e não deve ter estranhado a possível falta de explicação aos mistérios apresentados. Aliás, vi várias críticas apontando o filme como confuso, ou o roteiro raso, ou simplesmente ruim por esta falta de explicações ou por não terem entendido o filme. Acredito que estas pontas soltas foram propositais e contribuem para o clima de mistério e nos colocam as dúvidas que os personagens estão vivenciando sobre o que é a realidade, pesadelo ou loucura, que se fossem melhor explicadas talvez não funcionassem tão bem, pois, mencionando Lovecraft, o horror pode ser mais impactante quanto vai além da compreensão humana. Ainda mencionando Lovecraft e seu horror cósmico, mostra a insignificância humana frente à seres e dimensões ancestrais.

Além de The Beyond, outro filme que parece ter sido de grande influência foi Hellraiser, de Clive Barker, onde vemos personagens se mutilando, dimensões paralelas, o vilão sem pele que lembra esteticamente imagens de Hellraiser.


O clima claustrofóbico e o body horror nos remetem a outro grande filme dos anos 80: Enigma do Outro Mundo, de John Carpenter. Embora The Void tenha bons efeitos práticos, estes ainda não se comparam com produções como esta de Carpenter ou A Mosca, de Cronenberg, mas para um filme de baixo orçamento, o resultado foi excelente. Cronenberg também pode ser visto como uma influência por conta da sua filosofia envolvendo carne e mutações corporais. Outros grandes filmes oitentistas e lovecraftianos que vejo elementos em comum é Re-Animator, de Stuart Gordon, embora sem o humor presente neste filme, ou também From Beyond, do mesmo diretor.


O filme mostra a competência dos jovens diretores, que além dos trashs anteriores, podem se arriscar em filmes mais sérios e tensos, apesar ainda do baixíssimo orçamento, mas, para não fugir da sua veia trash sangrenta, os diretores ainda trazem uma boa dose de gore e uns litros de sangue.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Das Komabrutale Duel (Alemanha, 1999)

Filme: Das komabrutale Duell /  The Coma-Brutal Duel
Diretor: Heiko Fipper
Ano: 1999
País: Alemanha
Duração: 86 minutos
Elenco: Heiko Fipper, Mike Hoffman, Stefan Hoft

Chegou a hora de voltar com as postagens, após mais um interminável período de hiato, mas prometo que agora as postagens serão mais frequentes. 
Volto da pior forma possível com o filme Das Komabrutale Duell, ou The Coma-Brutal Duel, dirigido por Heiko Fipper em 1999, na verdade, se a informação do IMDb estiver correta, foi o trabalho da vida dele, sendo filmado entre 1984 e 1999 como uma coleção de curtas que formaram esta obra-prima do sangue laranja. 
Fipper é considerado um dos representantes do chamado ultragore alemão, juntamente com diretores como Olaf Ittenbach, Timo Rose e Andreas Schnaas. Estes filmes são feitos de forma amadora e sem orçamento por fãs de gore. A história, se é que podemos chamar assim, de The Coma-Brutal Duel é bastante rasa e parece que foi sendo pensada à medida que foram filmando, mesmo que isso tenha levado 15 anos. Tratam-se de sucessivas vinganças entre os membros de uma máfia/gangue contra um personagem e sua família e amigos que vai se arrastando por anos. Ou seja, basicamente o filme todo é baseado em pancadaria, tiros, tortura e mutilação com diversos instrumentos. 


O filme não deve ser levado à sério em nenhum momento, tanto que as brigas incluem centenas de socos, tiros, inclusive na cabeça, mutilações e os personagens seguem vivos e prontos para a briga.
São várias cenas absurdas, como um médico maluco que espanca suas vítimas até a morte, costura seus ferimentos, juntando os pedaços decepados e os reanima com eletrochoque, tornando-os como zumbis.

Em outra cena neste local, um dos personagens é atingido na cabeça e um dos amigos tem a brilhante ideia de tirar metade do seu cérebro para reavivar o amigo, já que ele claramente parece não usar muito o seu. Para isso, um outro amigo arranca-lhe a cabeça com a mão, a abre e retira meio cérebro para colocar no defunto, enquanto o corpo decepado fica perambulando pela sala. Após realizar a cirurgia nos dois cabeças ocas e colar tudo no seu lugar, com cola quente, todos ficam consertados e podem continuar na sua infinita vingança. 


Em outra cena, este mesmo trio, que perdeu muito sangue, faz uma transfusão de sangue caseira usando o sangue de um balde. E por aí vai o filme com alguns desses absurdos para divertir um pouco enquanto a pancadaria come solta. Ainda temos cenas de extração de fetos (bonecas) que são esmagados; cortes são fechados com grampeador; um estancamento de sangue é contido com um ferro quente, e tudo isso banhado de muito, mas muito sangue - meio alaranjado - e efeitos gore caseiros, pra compensar a falta de sentido da história. E, apesar do excesso de sangue e violência, não considero muito chocante, talvez devido ao baixo orçamento e dos efeitos não muito convincentes.


Apesar de tudo, o filme não é muito divertido, talvez por se levar meio à sério, mesmo com tanta bizarrice que acontece. E como são basicamente 90 minutos de sangreira, acaba ficando cansativo e não é um filme marcante. Tanto que quando acabei de ver já nem lembrava como havia sido o final. Em uma das críticas do IMDB, vi uma definição que faz sentido para o filme, classificando-o como "ultra-bore". É um filme que deve ser visto apenas por entusiastas de filmes trashs baratíssimos e cheios de gore.


Em comparação com outros filmes do ultragore alemão, como Black Past, The Burning Moon e Premutos de Olaf Ittenbach, The Coma-Brutal Duel fica devendo, mas se for comparado com a série de filmes Violent Shit, de Andreas Schnaas, o filme até parece bem mais assistível.

O que acho interessante no filme e sempre destaco, é que foi feito por um pequeno grupo de amigos, ficando a cargo do diretor também atuar e fazer os efeitos especiais. E mesmo que ninguém goste (sempre tem algum maluco para gostar), se a produção do filme trouxe alguma diversão para os envolvidos, acho que já é válida.
Heiko Fipper também dirigiu e atuou no filme Ostermontag, de 1991.